Mass Effect 3 – Análise

07 de Março de 2012
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Mass Effect 3 – Análise

O fim é sempre um início.

 

Versão testada: Xbox 360

O arrependimento é um dos sentimentos que impera em cada humano. O poder de decisão entregue a cada ser humano possibilita a chegada de erros, muitas vezes derivados de consequências ou resultados diretos não calculados. Poderei ir mais longe, afirmando que muitas vezes esquecemo-nos que uma decisão nossa provoca um efeito ou efeitos em cadeia, os quais raramente podemos controlar. A maioria dos videojogos não permite esta abordagem às personagens jogáveis, mas existem algumas raras exceções que dão ao jogador um enorme poder de decisão, com efeitos devastadores.

Mass Effect 3 é para mim, talvez a par de Heavy Rain, o jogo que mais me marcou a este respeito. O poder de decisão é tal que senti-me genuinamente arrependido por ter tomado determinada decisão. Muitas vezes não sabemos os resultados que derivarão das nossas decisões, e quando temos o destino de todo o universo nas nossas mãos, incluindo todos os seres vivos e sintéticos, então temos que ter muito cuidado com as decisões que tomamos. O estúdio BioWare está bem habituado a este tipo de narrativa complexa. Mass Effect 2 é um dos exemplos, merecendo na altura a nota máxima na Eurogamer Portugal.

Tenho que também começar por louvar a atitude da BioWare para com a franquia Mass Effect. O universo do jogo ou da série é enorme. Quando digo enorme, quero dizer gigantesco. A complexidade das relações, as imensas raças do universo são de tal forma ricas que facilmente o estúdio poderia ter colocado outra equipa a explorar em formatos despin-off outros elementos da série. (Aqui não incluo os jogos ou pequenos formatos do iOS, pois não considero um aproveitamento desnecessário). Existe uma enorme riqueza e atenção ao detalhe. Quem não conhece a série, dificilmente poderá entrar de cabeça em Mass Effect 3. Se o fizer está a perder todo um trabalho de anos, onde foram criadas relações sólidas entre as diversas personagens que culminam neste último jogo da trilogia.

Mass Effect 3 é uma sequela e seguimento direto do segundo jogo da série. Poderão aproveitar e pegar também nos DLCs lançados para Mass Effect 2, que irão compor a história, mas nada de grave. Nesta análise falarei sempre da personagem base, o que costumo chamar do genuíno Comandante Shepard. Desde o primeiro jogo sempre escolhi o tradicional, talvez por achar que esta é a visão fidedigna e sem alterações dos estúdios BioWare. Mas poderão jogar com a vossa personagem de Mass Effect 2, influenciando por quem morreu no jogo, e claro, levarão as personagens específicas para o terceiro jogo. Se quiserem ainda poderão jogar com a FemShep, uma visão ainda mais adulterada (desculpem quem joga com a FemShep) do formato original.

O Comandante Shepard inicia a sua jornada desde o nosso planeta Terra (fruto de um dos DLCs de ME2). Os Reapers, uma raça sintética extremamente antiga e poderosa, cumpre com as ameaças e faz um ataque feroz contra o planeta Terra. A humanidade vê-se confrontada com uma ameaça com poder de fogo para além do que consegue suportar, e as baixas começam a crescer rapidamente. A única esperança está em Shepard, mais precisamente na sua capacidade de reunir todo o universo na mesma causa. Vencerem os Reapers.

Este é à partida um enredo nada extraordinário. A humanidade vê-se novamente perante a aniquilação global e um herói é sempre necessário nestes momentos. Mas a tarefa não será fácil. As diversas raças do universo têm os seus próprios problemas e poderão não estar interessados em disponibilizar recursos que poderão fazer falta noutras frentes. Temos por exemplo a eterna guerra entre os Quarian e os Geth, ou entre os Turian e os Krogan. Não esquecer ainda as estranhas intenções da organização Cerberus e o seu líder misterioso The Illusive Man. Estamos assim dentro de um caldo a ferver pronto para entornar a qualquer momento.

A principal tarefa de Shepard é reunir o maior número possível de aliados para a batalha na Terra. Para isso irá viajar por todo o universo, criando alianças e resolvendo as diversas divergências para que todos se entendam e tenham um objetivo em comum. Derrotar os Reapers. Aqui poderá começar uma das maiores críticas a Mass Effect 3. Diferente dos anteriores, principalmente de Mass Effect 2, aqui temos um planeta Terra completamente cercado e atacado por ferozes máquinas maiores que arranha-céus que dizimam tudo à sua frente num piscar de olhos. A demanda por ajuda demorará o seu tempo e pelo caminho ainda temos tempo para missões extras que retiram um pouco do senso de urgência e pânico que se vive. Nem mesmo o choro de uma personagem masculina que acabou por perder o seu marido é razão para pressas. Na verdade poderão andar mais rápido, cumprindo com as missões principais e têm mais de 22 horas de jogo. Mas deixam para trás imensas missões laterais.

Logo no início somos confrontados com uma escolha que altera por completo o jogo. Agora e talvez na onda de atingir um maior número de jogadores, podemos optar por jogarmos todo o jogo como um autêntico shooter, sem qualquer tipo de poder de decisão, relegando o RPG para segundo plano, e escolhas de frases. Aqui as cinemáticas decorrem sem qualquer tipo de paragem. É uma visão alternativa mas que retira todo o sentido a Mass Effect, e ainda bem que é uma opção.

Pegando ainda neste assunto, Mass Effect 3 é ainda mais um jogo de ação que Mass Effect 2. Apesar de podermos optar por diversos tipos de classes, muitas das batalhas resumem-se a deitar chumbo e essa será certamente a tendência de todos os jogadores. Isto mesmo que optem por serem inicialmente um jogador Adept. A forma que os confrontos estão criados deixa pouca margem de manobra para outra forma de os abordar. Embora tenha que referir que terão que misturar os estilos de luta muitas vezes, pois de outra forma nunca conseguirão ultrapassar determinadas batalhas.

Mass Effect 2 foi um marco nos videojogos. Introduziu uma narrativa sólida, melhorou imenso o motor de jogo referente ao primeiro jogo e inovou por misturar diversos elementos de jogabilidade. É um shooter extremamente sólido, mas com doses certas de RPG, poderes e linhas táticas. Mass Effect 3 pega no que foi feito no segundo jogo e não é um salto tão grande como foi do primeiro para o segundo. Pelo menos no aspeto gráfico, gameplay e construção dos cenários e desenrolar das missões.

Apesar disso, Mass Effect 3 vive muito pelo seu enredo. Afinal estamos a culminar uma história que começou em 2007, e quem segue o jogo desde então quererá saber como tudo termina. Iremos visitar locais conhecidos embora alterados, como é o caso da Citadel, Thessia e Tuchanka. A própria Normandy está diferente e mais artilhada. Talvez para não cansar o jogador, em Mass Effect 3 se quisermos seguir a história principal iremos andar menos a divagar que nos jogos anteriores. Isso foi deixado para as missões secundárias. Diga-se de passagem que algumas são extremamente chatas e confusas.

Por exemplo, ao passar por um cidadão na Citadel ouvimos rumores sobre um determinado artefacto. Vamos ao nosso diário e não aparece nada sobre o que realmente temos que fazer. Para podermos saber para onde temos que ir, que planeta visitar, temos que sair da Citadel, entrar na Normandy, ir ao mapa da galáxia e pesquisar onde está o artefacto e então viajar para lá. Ou seja, apenas para recebermos uma indicação temos pelo meio três ou quatro loadings. Demasiado para uma pequena missão secundária.

Para cada missão temos que escolher pelo menos dois companheiros. Ao estilo do que já estamos habituados. Cada membro poderá subir de nível de acordo com determinada árvore de características, gastando os pontos de experiência que adquirimos nas missões. Embora possamos melhorar diversas características, dentro de cada uma é quase uma linha recta, não havendo margem para grandes decisões. Referente às armas, temos várias opções de escolha, sendo que podemos modificar pelo menos características de cada arma, aplicando os diversos extras que apanhamos nas missões ou que tenhamos comprado. É claro que nem todas as personagens podem usar todo o armamento encontrado, como por exemplo a Liara, que é extremamente útil para “preparar” a morte, como lhe chamo.

Sobre os nossos recursos, agora recebemos “dinheiro” via a Aliança, ou que tenhamos apanhado pelo caminho. Se em Mass Effect 2 foi abolido o horrível pesquisar nos planetas por minério e outros recursos, e introduzido uma pesquisa por via do espaço apenas enviando “Hubbes” para o planeta em causa, agora em Mass Effect 3 isso foi completamente abolido. Agora não pesquisamos planetas, mas sim sistemas de estrelas. Existe a opção de podermos fazer “Scan” ao sistema de planetas, podendo por vezes chamar atenção das naves dos Reapers, causando uma cómica e estranha perseguição com naves em miniatura. Pessoalmente fiz “Scan” a torto e direito e nunca apanhei nada, a não ser planetas descobertos que apenas permite termos uma descrição sobre eles. Um sistema inútil e sem sentido quando estamos perante uma campanha onde todo o universos está envolvido.

Para além do mapa da galáxia, na Normandy está presente um Terminal de Guerra. Diferente do que parece ser, o terminal funciona como uma biblioteca sobre as diversas divisões das raças e seus exércitos, bem como aponta em que zonas dominam e que conflitos existem entre eles. Para alguém que não esteja dentro de todos os conflitos, poderá perder aqui (para além das diversas informações no “Journal”) algum tempo para se inteirar de tudo. Para além disso, não tem qualquer outra utilidade.

As missões em Mass Effect 3 começam em termos de interesse abaixo do esperado. Posso dizer que nas primeiras 5 horas o jogo era uma pequena desilusão, muito devido ao alto padrão deixado por Mass Effect 2. Tudo melhora depois das 10 horas de jogo, parecendo até que os autores viram que tinham que deixar de lado certos clichés, a puxar pela lágrima e situações menos conseguidas. Levar Mass Effect até ao fim será uma tarefa árdua. Algumas missões são um puro pesadelo, isto no bom sentido. Os inimigos são extremamente versáteis e raramente estão em posições desprotegidas. Atuam em conjunto, organizando-se, e tentando a todo o custo flanquear a nossa equipa. Aqui entra a ajuda dos nossos companheiros, que agora apenas se resumem a dois. Temos que estar sempre a dar indicações, pois se o não fizerem, não esperem uma ajuda eficaz. Se os nossos inimigos são providos de uma IA fantástica e extremamente difícil em muitos casos, já os nossos companheiros não são assim tão “educados”.

Apesar de já ser um shooter por excelência, Mass Effect 3 peca um pouco pelo sistema de cobertura. Apesar de podemos correr e saltar muros e subir para níveis superiores em modo corrida, nem sempre funciona bem. A maior parte das vezes morri devido a este problema de cobertura. Por exemplo, se estivermos em modo cobertura apenas podemos sair para o lado ou por cima se aparecer uma seta azul no ecrã, não sendo dinâmico e muitas vezes, no calor da ação, torna-se caótico, levando à morte. Não é um sistema mau, longe disso, mas também está longe da perfeição.

Mass Effect 3 introduz também um modo multijogador cooperativo até quatro jogadores. Aqui temos o modo “Galaxy at War”, onde teremos que enfrentar vagas de inimigos em sete mapas diferentes. Se acham as vagas das missões do modo de um jogador complicadas, então aqui terão doses de emoções. Aqui podemos misturar as raças, como os Krogans e Turians, embora não com as personagens conhecidas. Cada jogador constrói a sua e escolhe qual a classe que quer jogar, bem como as habilidades onde gastar os XP ganhos.

Mass Effect 3 é um final brilhante, épico e extremamente forte na série. Existem situações de pura beleza narrativa, principalmente nas últimas 10 horas de jogo. Pegando no sucesso de Mass Effect 2, a trilogia termina com chave de ouro. É um produto de topo que vale cada cêntimo gasto nele. Apesar de algumas missões secundárias não serem muito interessantes, temos horas e horas para jogar para além da história principal. Concluindo um pouco a introdução, o arrependimento será algo que poderão sentir em Mass Effect 3. Algumas decisões farão realmente a diferença, e talvez não sejam assim tão óbvias no início. Mas se querem mudar algo que se tenham arrependido, nada melhor que começar de novo. No meu caso, tentarei não aniquilar uma raça inteira a meio do jogo, e aviso já. Não são os humanos.

 

Classificação:

9/10 ou 4.5/5

 

Fonte: Eurogamer

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Autor

Filipe Almeida

Criador e fundador do Portal Xbox Portugal juntamente com a "PXP Team". O Portal Xbox Portugal foi criado com o objectivo de recolher informações e notícias sobre o mundo da Xbox e juntar tudo num local para que tem interesse por esta plataforma, ter tudo filtrado num único sítio.